December 01, 2011


Luis M. Correia é Doutorado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, e tem desenvolvido a sua carreia como Professor no IST na área de Telecomunicações, participando em vários projectos de investigação e desenvolvimento. É líder do GROW e membro da Net!Works, a plataforma europeia para redes e serviços de telecomunicações. Tem tido ainda um papel de consultor junto dos operadores de serviços de telecomunicações e do regulador do sector.

Qual foi o projecto mais sustentável em que já participou?

Estou neste momento a participar num projecto de I&D no âmbito do 7º Programa Quadro da EC (EARTH, https://www.ict-earth.eu) que se dedica exclusivamente às questões de eficiência energética em redes de comunicações móveis.  A ideia é reduzir o consumo de energia nestas redes em todos os aspectos, ou seja, não só nos que dizem directamente respeito às Telecomunicações.  Até há pouco tempo, o dimensionamento deste tipo de redes só tinha tido em consideração a eficiência energética dos telefones (para evitar que o utilizador o tenha que carregar com muita frequência), mas agora esta perspectiva está a ser fortemente incluída no desenvolvimento dos novos sistemas, para além de estar também a ser trazida para os sistemas que já estão a funcionar (GSM e UMTS).  É claramente um grande contributo para o aumento da sustentabilidade das redes de telecomunicações, especialmente, porque se prevê que a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação continue a aumentar nos próximos anos.

Num clima económico mais frágil, teme que as iniciativas de sustentabilidade fiquem para segundo plano? Que oportunidades de recuperação económica vê nesta área?

É de facto “tentador” que na situação económica actual se coloque com prioridade baixa os investimentos que estão associados à sustentabilidade, por poder não ter um retorno imediato ou grande.  Contudo, nalguns casos, estes investimentos poderão contribuir para a sustentabilidade num prazo muito curto, como por exemplo, os relativos à eficiência energética, e respectiva redução de consumo de energia (eléctrica, ou outra).  Os exemplos de redução de iluminação pública através de redes de sensores (sem perda do serviço prestado aos cidadãos), ou de encaminhamento de tráfego e de estacionamento eficiente nas cidades (com a consequente redução de consumo de combustível) mostram isso mesmo.  Nalguns casos, é possível implementar estes projectos com apoios de programas europeus, o que pode reduzir significativamente o investimento necessário do lado nacional.  Adicionalmente, este tipo de iniciativas contribui para o desenvolvimento de empresas específicas para estas áreas, com a consequente criação de emprego em áreas de tecnologia avançada.

O que são para si “smart cities”?

As Cidades Inteligentes envolvem uma nova abordagem e forma de olhar para as cidades enquanto infra-estruturas globais, onde os serviços são suportados em Tecnologias de Informação e Comunicação.  A médio prazo, a aplicação prática deste conceito aumentará a qualidade de vida dos cidadãos, e melhorará a eficiência e a qualidade dos serviços prestados por autoridades públicas e empresas.  São identificadas seis dimensões que compõem as Cidades Inteligentes: Económica (competitividade), Pessoal (capital social e humano), Governo (participação), Mobilidade (transportes), Ambiente (energia e recursos naturais), e Vivência (qualidade de vida).  Com estas componentes, as cidades são estruturadas através de uma nova abordagem que as integra com as suas infra-estruturas, incorporando os aspectos tecnológicos, assim como as perspectivas económicas, sociais e políticas.  A possibilidade de aceder a um vasto conjunto de serviços prestados pelas várias entidades e empresas através de um telefone móvel e/ou computador, a utilização mais eficiente dos recursos de transporte, a diminuição nos preços dos serviços de diversas áreas, bem como o aumento da qualidade de vida, são algumas das principais mais-valias e implicações que as Cidades Inteligentes terão, a nível prático, no dia-a-dia da população.

Que iniciativas interessantes conhece nesta área? Tanto em ambiente académico como aplicadas em situações reais.

Já existem várias experiências piloto sobre a implementação de alguns aspectos (não conheço nenhuma experiência integrada dos vários sectores).  A nível nacional, o exemplo de Aveiro é já antigo, no sentido que a cidade tem sido naturalmente usada pela Portugal Telecom (através da PT Inovação, onde está sediada) para conduzir algumas experiências.  Recentemente, com o apoio da EDP, está a decorrer o projecto InovCity em Évora, na área da medição inteligente do consumo de energia eléctrica a nível doméstico.  Na Europa, existem múltiplas iniciativas, desde o parqueamento inteligente no centro da cidade (à semelhança do que existe nos centros comerciais, onde sabemos quantos lugares vagos existem num corredor à entrada deste) em Santander (Espanha), até uma cidade na Polónia (não me recordo o nome) onde a iluminação pública em certas zonas é ligada através de sensores de movimento, passando por Atenas (Grécia) em que um hospital envia os seus doentes em regime pós-operatório, ou crónicos, para as suas residências com uns coletes com sensores que disparam alarmes no hospital em caso de problemas

De que forma é que os meios digitais podem contribuir para a concretização dos projectos de Smart Cities e sustentabilidade?

As Tecnologias de Informação e Comunicação são essenciais para o sucesso das Cidades Inteligentes, e da sua futura sustentabilidade.  Através da integração das infra-estruturas globais, e usando a maior quantidade de informação possível, muita dela em tempo real, conseguir-se-á obter ganhos enormes em termos de eficiência energética, e não só.  A utilização de informação dos cidadãos, como por exemplo a localização em tempo real do carro, implica que se tenha que usar tecnologia para garantir a segurança da informação (e das redes que a recolhem e transmitem), e ainda para respeitar a sua privacidade; neste exemplo do carro, o que interessa é saber onde estão os carros, para gerir o tráfego de modo eficiente, sem que seja necessário saber quem é o seu dono, quem o conduz, e quem é nele transportado.  A quantidade de informação que terá que ser gerida vai ser enorme, não se tendo neste momento uma ideia precisa da sua dimensão.  Assim, só com uma utilização intensa das Tecnologias de Informação e Comunicação será possível concretizar as Cidades Inteligentes e a sua sustentabilidade.

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